Sunday, 20 October 2013

A beleza que nos une

Adoro viajar. 
Se me perguntarem o que é que eu acho mais valioso ou mais interessante em cada viagem, hei-de responder que é descobrir pequenos "pedaços de casa" nos sítios mais surpreendentes. Talvez é a minha necessidade de manter a ligação com a terra natal, como um laço que vai comigo em todo lado, um cordão ombilical imaginário ou muito mais simples, as saudades. 
E estes "pedaços de casa" nem sempre têm a mesma forma, as vezes são descobertas gastronómicas, como me aconteceu na República Checa ou em Portugal, outras vezes são sons, cheiros ou um cintilhar das águas dum rio qualquer que no momento faz o meu coração bater uma vez mais forte. 

Mas gosto ainda mais de viver momentos de pura e inalterada beleza, seja onde for.



De vez em quando obrigo o meu namorado ouvir música romena que representa uma zona ou outra do meu país e não foram poucas as vezes em que ele, com conhecimentos musicais superiores aos meus, disse que aquela ou outra peça musical tinha influências de outras culturas. 
E acho que não estava enganado. 
E acho bem que haja influências de outras culturas na nossa música, na nossa arte, são provas de encontros que valeram a pena. 
Afinal, onde é que se encontram as fronteiras da beleza? 
Há muito pouco tempo, na minha cidade (Baia Mare, norte da Roménia), houve o 2º encontro internacional para a preservação do castanheiro (o que tem o fruto comestível) que está a ser atacado por uma doença que ameaça a continuação da espécie. Juntaram-se especialistas de vários continentes para encontrar soluções. Ao jantar, como a tradição romena pede, houve um momento musical. Uma pessoa tem que presenciar para acreditar certas coisas, mas acreditem que ao som do Grupul Iza abriram-se as fronteiras todas e uniram-se os braços numa dança tradicional romena que a maioria dos convidados nunca tinham ensaiado!
Adoro quando isto acontece, quando há um momento cultural representativo para um povo qualquer, não importa qual, que consegue romper com as minhas barreiras culturais. Chorei sem poder falar ao ouvir o momento do fado no filme A Gaiola Dourada. O fado é vosso, portuguêses, mas a letra poderia partir o coração de qualquer pessoa que esté tão longe de casa como eu estou. Chorei, mas saí feliz do cinema, a pensar na beleza da música, na linguagem universal que ela é. Voltei a pensar nos cientistas que se juntaram para salvar o castanheiro e que acabaram um encontro científico ao som da nossa música. Aposto que ninguém pediu uma tradução da letra, porque não foi preciso. A mensagem ultrapassou qualquer barreira linguística e pôs a multidão a dançar. 

Porque há beleza que nos une.